terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Nina Lemos: Vaia para Demi Moore foi grito dos humilhados

O que uma grife e um evento de moda fazem quando trazem duas grandes celebridades internacionais para o Brasil?


Montam um tapete vermelho cenográfico para criar um clima Oscar. Só que ninguém vai ver de perto esse momento. Ele é cenográfico, lembrem-se. E serve para ser fotografado e filmado. Brasil a fora, a imagem vai circular. E quem não tem acesso a um evento de moda vai pensar: "Nossa, como eles são glamourosos".

Certo. A "grande" ideia foi da Colcci, que trouxe os astros Demi Moore e Ashton Kutcher para abrilhantar (ou perturbar) o seu desfile de ontem foi essa. E o que você faz com os fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas que testemunharão o tapete vermelho. "Ah, eles que se danem".

Para o "baixo clero", foi montada uma arquibancada estilo Oscar. Entramos (acho que eu era a única jornalista que estava lá) por uma fila onde já fomos tratados com gritos. Um colega fotógrafo esperou por sete horas. Esse colega pode ser chamado de tudo, menos de antiprofissional, certo?

Quando conseguimos entrar, depois de uma espera de cerca de uma hora e encontrar a tal arquibancada, seguranças logo tomaram conta do local.

"Não deixem eles saírem", dizia alguém da produção do evento. Como se os "eles" fossem animais. E a espera começou. As moças, avisou um segurança, poderiam, depois de pedir, claro, usar o banheiro masculino, o único disponível na zona de confinamento. Sair para comer nem pensar. Dar uma volta, você que não se atreva.

As celebridades chegaram. Cada uma de uma vez. Com uma distância de cerca de uma hora entre elas. Primeiro, Alessandra Ambrosio. Uma hora depois, Gisele Bündchen. Enquanto isso, espera em zona de confinamento.

Vez ou outra, alguém da produção do evento distribuía água, que era praticamente jogada. A gente não podia sair de trás de uma grade. Impossível não comparar com um zoológico. E, o pior, não se sentir nele.

Bem, as pessoas já estavam presas por quase três horas quando os fotógrafos começaram a gritar um com o outro. "Rebelião, rebelião. Está na hora da rebelião."

Demi não chegava. As pessoas precisavam entregar seus trabalhos. E também não aguentavam mais. "Vamos embora", disse um. E, de fato, vários fotógrafos recolheram seus equipamentos, desmontaram as escadinhas que usam para tentar conseguir o melhor ângulo (e depois eles que são os antiprofissionais) e tentaram ir embora. Foram impedidos pelos seguranças.

O diretor Paulo Borges, que esperava os astros passeando pelo tapete vermelho com produtores, assessores e os poderosos da Colcci, andou até a grade e (pelo lado de fora, claro) pediu calma, espera.

Cinco minutos depois os astros chegaram e foram recebidos com vaias. Uma vaia não combinada. Mas que estava entalada na garganta de cada uma daquelas cerca de 200 pessoas que passaram quase três horas se sentindo humilhadas e com sentimentos muito humanos de sede, fome, vontade de fumar um cigarro, saco cheio.

A vaia não foi para os astros, mas para a falta de tratamento recebido, para a marca, para a produção do evento. E também para o complexo Tupiniquim. É assim que você trata "os trabalhadores brasileiros" enquanto astros hollywoodianos passam por aqui. Não, não devia ser assim. A vaia, na verdade, não foi só pelo atraso de Demi e Ashton. Ela foi um grito de liberdade dos humilhados.

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